terça-feira, 7 de abril de 2009

Vade Mecum



"Faça o que queres, há de ser tudo da lei"
Raul Seixas

Um dia, estava tentando convencer a minha amiga que o ex dela não prestava. Ela, como toda mulher apaixonada (leia-se burra), tentava defendê-lo de todas as formas. Na discussão, ela dizia que ele poderia até não prestar como homem, mas que como profissional era um gênio. Eu disse que ele não era gênio porra nenhuma porque não pagava os impostos nem os direitos trabalhistas de seus funcionários.

A paixão é mesmo uma coisa ruim porque quando estamos tomados por ela, além de não enxergarmos o óbvio, também perdemos o bom senso como é o caso desta amiga, que, na defesa do canalha, disse que era um absurdo pagar impostos e direitos trabalhistas.

O que as pessoas que não frequentaram uma faculdade de direito não costumam entender que, sem lei, só há bárbarie, é o caos. Se com ela a gente já vê este tanto de absurdo, imagina sem? E se a lei, por mais absurda que possa parecer existe, é porque precisa existir. Meu pai costuma me contar de um artigo do código comercial que ele achava rídiculo e foi perguntar pro professor o por quê da existência, se aquilo era realmente necessário. O que ele ficou pasmo é que a lei foi criada depois de um episódio igualmente bizarro.

O que quero dizer é que se as leis existem é porque precisam existir. Se não existem, talvez é porque um dia existirão ou não são necessárias. A internet hoje é usada completamente sem controle, cada um (eu inclusive) escreve o que quer, quando quiser, sem respeitar qualquer critério. Sim, é a democracia digital, mas que muitas vezes é desrespeitada. Por isso, creio eu, que um dia existirão regras para este novo jogo online.

Se existe o Código Civil, de Processo Civil, Penal, de Processo Penal, Eleitoral, e todos as demais consolidações, constituições e etc para regular todo tipo de matéria é porque a sociedade precisa. Entretanto, não há um Código do Amor embora muitas "regras" de relacionamento estão dispostas em livros de auto-ajuda. O fato é que as leis do amor existem no consciente coletivo da sociedade, mas nunca foram estudadas, pensadas e testadas como as leis "normais".

Tem gente, porém, que segue a risca estes manuais do amor. Outros não. Nunca vou esquecer do que uma amiga me disse a respeito de outra amiga dela, que ficou com o namorado dela: "é que ela acha normal ficar com o namorado das amigas, ela não vê problemas nisso, não acha nada de errado". Eu, que não acho normal porra nenhuma ficar com o namorado de amiga, rebati: "Ela anda pelada na rua? Ela rouba? Trafica? Não, porque ela sabe que não pode. Ficar com namorado de amiga é a mesma coisa".

Hoje vejo que não é não a mesma coisa. Quando se fala sobre amor, não há regra nenhuma. Não há nenhuma previsão legal, cada caso é um caso. Digo isso porque, coincidentemente, eu e muitas amigas estamos vivendo situações em que estamos quebrando todas as "leis". Outra amiga querida, pessoa que muito estimo, está com medo de "desrespeitar" uma destas regras e, ao invés de se dar o benefício, está vivendo o martírio da dúvida tudo porque não consegue tirar a prova dos nove.

Claro que eu ainda acho a amiga da minha amiga uma grande de uma safada e acho um absurdo ficar com o namorado das amigas. Mas... quem sou eu para dizer alguma coisa? Nos últimos tempos, tenho escutado histórias de pessoas felizes, que começaram um relacionamento nada convencional, "quebrando" todas as regras. Outras seguiram devidamente o "protocolo" e quebraram a cara. Se for pra quebrar alguma coisa, que sejam as tais leis não?

Uma coisa que não me esqueço é aquele filme Hitch, com o Will Smith em que ele ensina um cara gordo e esquisito a conquistar uma moça linda e milionária. No final do filme, a milionária conta que se apaixonou por tudo de estranho que o cara fez e o conselheiro amoroso se dá conta que todos os conselhos que ele deu foram totalmente inúteis e que não há fórmula para se apaixonar.

Hoje, olhando de fora, vejo o quanto estas regras podem ser absurdas. Tipo: "Não namore pobre" ou "Não ligue" ou "Não saia com homem casado" ou "Não traia" ou "Não conte nada" ou "Onde se ganha o pão não se come a carne", enfim, todas estas "leis" que, por um acaso, começam com "não" podem ser um total fracasso. Estas "leis", inclusive, não tem nem manual de aplicação, como as que estão nos nossos códigos. Em direito penal, por exemplo, cabe ao juiz aplicar sempre a lei mais benéfica para o réu, entre tantos outros preceitos. E no amor, quando estamos em dúvida, que "lei" devemos seguir?

Conheço uma pessoa que casou com o porteiro do prédio em que morava- e está feliz da vida. Aliás, feliz é pouco, ela está radiante de tanta felicidade. Imagina o quanto esta moça não ouviu? Quantas leis ela quebrou? Nenhuma, ela só seguiu a lei mais importante de todas, a que está no topo do ordenamento jurídico: a do coração. E, esta meus caros, é a que realmente importa.

P.S.: Vade Mecum é um volume que tem TODOS os códigos que um aluno de direito precisa na vida.
P.S.2: Dedico este post para todas que quebraram as leis do amor.
P.S. 3: Este post é para uma amiga pra lá de especial que vai saber bem que "lei" deverá usar.

Um comentário:

Bibi disse...

Outro texto fofo! Não há leis, mas há dignidade!
Era namorado ou ex? Não entendi!