domingo, 7 de dezembro de 2008

A Ilha

Mesmo quando morei em NYC não me senti tão ilhada como me sinto hoje em São Paulo. Talvez porque lá era tudo novidade, então não tinha tempo para me sentir deslocada- ou sozinha. O tempo que lá eu tinha era para descobrir, curtir ou dormir, não necessariamente nesta ordem. Sabia que lá minha vida tinha uma hora para acabar, que eu não iria morar ali para sempre.

Hoje me vejo em São Paulo por tempo indeterminado. parece até que vou morrer aqui. Mas esta sensação me dá tristeza: fazia sentido eu me sentir uma estranha em NYC, já aqui... eu nasci aqui, estudei aqui, conheço um monte de gente aqui. Mas continuo me sentindo estranha.

Um exemplo: tenho respeito pelas regras. Se dizem que é às 9h, para mim é às 9h. Se dizem que vão ligar, é porque vão ligar. Mas pareço ser a única que pensa assim porque eu marco às 9h e as pessoas chegam 10h, mesmo quando não tem trânsito. O que acontece é o simples desprezo que as pessoas tem pelas regras.

Em NYC, meu telefone celular tinha dez números na agenda. Aqui tem quase 300. E tanto aqui, como lá, as pessoas também não me ligam. Parece que não sou importante para ninguém. A verdade é que as pessoas estão ocupadas com a própria vida e esquecem de se preocupar com os demais, como se não vivessem em sociedade. Como diz um amigo meu, as pessoas priorizam elas mesmas e 30% de seu círculo social. O resto, bem, o resto é resto.

E é assim que tenho me sentindo ultimamente, um resto. Dizem que os amigos é a família que você faz. Como não tive família, tive que me apegar a isso. Mas hoje vejo que não é bem assim: os amigos nem sempre estão dispostos a ser família, e vice-versa.

Ontem, uma amiga chorou muito em seu aniversário: nem seus próprios pais foram, ninguém telefonou. Foram apenas duas amigas (eu e mais uma). Ela gritava: "Que droga, minha vida se resume a isso? Nós quatro e um bolo pequeno?". Segundo ela, a mulher da doceria olhou com cara de pena porque ela teve que comprar o próprio bolo- ninguém foi capaz de comprar pra ela. Agora a vida se resume a isso: se você compra o próprio bolo, é um idiota, perdedor. Se tem quem compre, sorte a sua. A vida se resume a isso.

Minha outra amiga teve nenén. Ninguém ligou para saber se estava bem. Eu perguntei: "Deu tudo certo, o plano cobriu tudo?". ela: "Não, mas eu me virei. Ganhei meu dia por você ter perguntado." Sinceramente, não precisa ser advinho para saber que as pessoas precisam de ajuda quando alguém nasce- ou morre. Falei isso para uma amiga que disse que eu não tinha avisado que passava por dificuldades. Ela perguntou porque eu não disse nada. Falei: "Querida, pelo momento que eu to passando você não se tocou disso?"

No fundo, as pessoas perderam o senso. Como elas têm tudo, não sabe o que significa não ter. Por isso, nem se preocupam com quem não tem. Santa Catarina? Aff, só para se aparecer. Mesmo.

Um comentário:

Rodrigo disse...

desde que voltei de nyc , tb me sinto estrangeiro, as pessoas gritam, as ruas sujas , serviços publicos medonhos arrrrrrrrrrrrre e lah nos eramos muito brasileiros , aqui somos muito americanizados ,que demencia isso tudo