quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Achei que as grávidas estivessem livres




A cobrança lá em casa era que eu não falava inglês. Depois foi não falar francês. E não conhecer os EUA e a Europa. Quando enfim cumpri com todas as “obrigações” apareceu uma terceira: emagrecer. Não bastava o fato de falar três línguas, ter experência internacional e ter dado um rumo na minha vida profissional. Além de tudo isso, eu teria também que ser, advinhe, magra. E ter as unhas feitas. E ser bonita. E bem vestida.

Antes de demitir minha família, fui notando que meus amigos, conhecidos e até desconhecidos na rua me cobravam tudo isso. “Você só fala três línguas?” , ouvi na entrevista de emprego. Como se fosse pouco. Ou algo como “ Nossa, você é gorda”, ouvidos na fila do mecado numa cidade perdida em Sergipe. A sociedade cobrava de mim, uma senhorita de 24 anos que eu fosse tudo isso. E antes de virar ermitã, fui ver se o problema estava só comigo ou tinha mais gente na mesma situação. Busquei a resposta nas minhas amigas e nas minhas primas de mesma faixa etária e fui descobrindo novas cobranças que eu sabia que existiam, mas não tinha me dado conta até sentar na frente desse computador.

Nem o pai perdoou- Uma amiga me confidenciou que o pai dela, certa vez, explicou para que era importante que ela fizesse sexo. Usou palavras usadas na escola, mas quis dizer o seguinte: “Minha filha, você PRECISA dar”. A outra me explicou que o problema não era só ser inteligente, falar línguas, ter mestrado, ser bem sucedida e dar: ela tinha que gostar de sexo e dar bem. E muito. Uma olhada nas revistas femininas na banca me fez ver que ela tinha razão. Mas essa mesma amiga reinterou: “ O problema não é só transar toda hora, é ter que gozar também, para o seu namorado não se sentir um inútil. E se a gente tenta conversar com ele sobre nossas dificuldades na cama, ele se sente um trapo.Se ficamos com o problema para a gente, como vamos resolver nossos problemas sexuais sem ajuda?”. Tentei segurar o queixo durante a explanação da minha amiga, que o fez cair quando revelou o último intem da lista de cobranças. “Já cansei de ouvir reclamação de namorado para eu tomar pílula, porque eles não queriam mais usar camisinha. Como se eu gostasse- e lembrasse- de tomar pílula. Até isso eu tenho que ouvir, para tomar pílula”.
Com apenas duas amigas, descobri que não era a única que recebia cobranças e era exigida ao máximo. A terceira dela falou algo que fiquei literalmente chocada: “Meu namorado reclama que não sei cozinhar, não arrumo a casa direito, mas é ele que bagunça tudo.Bem, pelo menos ele divide as tarefas domésticas meio a meio. Mas quando eu ficava sem trabalhar, ele cobrava que a casa não estava impecável”. Pronto, quer dizer que além de ser linda, gostosa, inteligente, ter uma carreira, dividir as contas meio a meio, gostar de sexo e ainda por cima gozar sempre, ela também tinha que saber lavar, passar,cozinhar e arrumar a casa. Só faltou o quesito cuidar bem dos filhos.

Nem as grávidas escaparam- A quarta pessoa que perguntei sobre cobranças alheias foi a minha prima de 30 e poucos anos que estava prestes a dar a luz. Ela, toda inchada, me contou que as pessoas a olhavam na rua tentando advinhar se ela tinha engordado os tais normais 10 quilos ou mais. Em lojas de coisas para bebês, as outras grávidas a mediam de cima a baixo para ver o tamanho do “estrago” causado pelo nenem. E outras, mais cara de pau,simplesmente perguntavam com olhar de desaprovação o quanto ela tinha engordado. Não perguntei se ela tinha ouvido o quanto já tinha emagrecido depois de parir.

Vendo que sim, nós mulheres jovens estávamos sendo cobradas demais, tentei enteder o por quê. Comecei com a origem de tudo, a minha mãe. Pensando um pouco sobre a minha educação lembrei das lições dela, que me ensinou a ser independente, estudar e ser culta. Fui ver com outra figura feminina importante na minha vida, a minha madrasta. Lembrei do episódio em que ela me ensinava a revidar o tal “está boa para casar” quando alguém elogiasse minhas habilidades domésticas com algo assim: “Estarei pronta para casar quando tiver dinheiro para me sustentar e dividir as contas com o meu marido”. E a última peça do meu histórico escolar de cobranças foi a minha avó, que me obrigava a lavar a louça nos almoços de domingo e me instruia em outras tarefas caseiras, como limpar a casa. Analisando tudo isso, vi que eu, aos 24 anos, deveria ser tudo isso que foi ensinado.
Um colega (homem, claro) italiano, disse que o fato de eu tentar cumprir as tais obrigações era minha culpa e que eu que simplesmente deixasse de lado tudo isso. A minha resposta? “ Tente viver 24 anos com essa ladainha na sua cabeça para ver se você consegue se livrar assim do dia pra noite”. Ele me aconselhou a tentar, pelo menos, mas reconheceu que ser mulher realmente não é das tarefas mais fáceis (só um parenteses: a minha amiga disse que era para eu não tentar não, porque sendo tudo isso eu estava solteira, imagina sem? “Você não vai desencalhar nunca”).
Provavelmente alguém já deve ter comparado- aqui ou em outro lugar- as mil e uma utlidades da mulher e as duas ou três dos homens. Não vou fazer isso e dizer que é injusto ou coisa parecida, porque sinto que boa parte das mulheres cobram umas as outras. Quando mandei uma foto durante uma temporada em Nova York, uma amiga escreveu: “Nossa, as coisas devem estar boas por ai, você está até de unha feita”. Pode?

De quem seria então nossa culpa por tanta exigência? Seria nossa culpa por não nos livrarmos desses “padrões de mercado”? Seria nossa culpa não exigir mais dos homens? Ou será que exigimos e não nos damos conta? O meu amigo reclamava que as namoradas dele pediam para ele programar o videocassete, consertar o liquidificador e pregar o quadro na parede e ele simplesmente não sabia fazer isso. Muitas vezes foi chamado de inútil. Não sei se exigimos tanto assim, porque pelo menos não escuto muito por ai coisas como: “Meu marido está gordo” ou “Não quero mais ficar com um broxa”. Somos um pouco mais tolerantes com os nossos padrões?

Infelizmente, colega leitora, não tenho respostas para todas essas perguntas. Nem posso dizer se essas cobranças são certas ou erradas, só sei que existem para algumas(ou todas) de nós. Também não sei como lidar com elas. Sei apenas, por alerta das amigas mais velhas, que essas exigências estão só começando(“ espere os filhos chegarem” ). E que, por hora, não sei até quando eu vou conseguir viver com elas. E você, tem alguma idéia?

P.S.: Este texto tem mais de dois anos e resolvi tirar da gaveta depois de ler a entrevista da Lavinia Vlasak na Contigo!. A atriz se recusou a dizer o quanto engordou na gravidez porque acha isso injusto, cruel e desumano. Ganhou uma fã, Lavinia.

2 comentários:

Dona Misídia disse...

Adoro seu blog, apesar de nunca ter me manifestado por aqui. Se esse seu texto ficou 2 anos na gaveta, valeu a espera! Pelo visto essas cobranças não acabam nunca. Eu também achei que fosse só comigo, mas pelo visto é assim em todo canto. Sabe qual é o problema, na verdade? Quanto mais você "oferece", mais te cobram as coisas, mais esperam de você. Será que em Rondônia, por exemplo, criam todas essas expectativas também? Acho difícil...expectativas...

tiseangelini disse...

Ivy,
Desculpe a "invasão" para falar de um outro assunto!
Vi no blog bem casadas que você já foi em um casamento no Velhão (uma das minhas opções prefiridas), mas não conheço ninguém que foi num casório lá! Você poderia me ajudar, me contando como foi???
Super obrigada!
Adorei seu blog!