quinta-feira, 25 de junho de 2009

Aos trópicos

Cena 1. Int. Empresa nova. Dia.

Como jornalista é a maneira mais glamourosa de ser pobre mas não isenta a pobreza, Ivy procura um novo bico. De terninho risca de giz, de posse de todos seus textos, currículos, diplomas e títulos ela vai até a nova empresa, que está contratando um freelancer.

MOÇA
Bom dia. Você que é a Ivy?

IVY
Sou eu sim, você é a Marcia, certo?

MARCIA
Sim, sou eu mesma. Me acompanhe por favor (andando pelo corredor até a sua sala). O Bruno me disse que você trabalha com política mas faz de tudo um pouco, é verdade?

IVY
Sim, Marcia, já fiz e ainda faço um pouco de tudo. Trouxe aqui meus textos da Placar, do Jornal da Tarde, da Superinteressante, da Capricho, da Nova, da Tpm...

MARCIA (interrompendo Ivy)
Da Nova? Que interessante, o Bruno não mencionou que você escrevia para lá. Você escrevia sobre o quê?

IVY
Fiz algumas matérias sobre sexo, beleza, comportamento, turismo, mas isso foi há muito tempo, eu ainda estava na faculdade.

MARCIA
Ivy, sente-se por favor. O Bruno lhe falou do que era o frila?

IVY
Não.

MARCIA
Que ótimo. Bem, nós somos uma agência de comunicação e prestamos serviços de publicidade e imprensa para alguns clientes. Estamos agora oferecendo conteúdo jornalístico e por isso estamos contratando uma pessoa para trabalhar de casa, que acaba sendo, vamos assim dizer, a opção mais confortável para este trabalho.

IVY (sem entender nada)
Que tipo de clientes?

MARCIA
Então Ivy, esta é a melhor parte: nós prestamos serviços de comunicação para toda indústria erótica brasileira. Produtoras de filmes pornô, sex shops, agências de garotas de programas, enfim, somos especializados em erotismo e pornografia.

IVY (tentando fingir naturalidade pensa: "Sei, putaria". Mas não diz nada)
Sei.

MARCIA
Enfim, um de nossos clientes agencia garotas de programas e vai começar a executar o serviço online.

IVY (pensando como seria um inferninho online: os homens pagam para fazer sexo virtual com as garotas?)

MARCIA
A idéia é revolucionária: será como um e-commerce convencional, só que com garotas. Ele colocará as fotos das moças, o cliente escolhe sua preferida e em até uma hora ela estará na sua porta.

IVY (pensando: que ótimo, sex delivery!)
Sei.

MARCIA
Mas como o comércio da prostituição é crime, temos que dar um jeito de viabilizar a idéia de forma que não fique tão na cara que é o que realmente é.

IVY (pensando: que ótimo, agora tenho cara de laranja. E pensar que eu reclamava da bunda com celulite...)
Como assim?

MARCIA
Nós vamos disponibilizar conteúdo no site. "Conteúdo", entendeu? (fazendo o sinal de aspas)

IVY (pensando: claro, conteúdo. O que não falta para estas mulheres é conteúdo).
Que tipo de conteúdo?

MARCIA (animada pela conversa ter chego até ali)
Contos eróticos. E como o dono da agência é um tanto quanto sofisticado, ele não queria contos de pura baixaria, por isso estamos procurando alguém com o seu perfil.

IVY (pensando que tipo de perfil ela tem para escrever contos eróticos. O que se coloca no currículo quando se candidata para uma vaga destas? Já dei para tantos, sou adepta de sadomasoquismo?! A Carrie Bradshaw quando está fudida faz frila pra Vogue e ela tem que escrever contos eróticos, bem à moda dos trópicos).
Meu perfil? Que tipo de contos eróticos?

MARCIA (surpresa)
Sim, alguém que estudou, formada, com cultura, cursos. Vi no seu curriculum que você estudou na New York University, escreve contos, crônicas. Mas Por que você pergunta que tipo de contos?

IVY (agindo profissionalmente pensa que pelo menos ela leu o currículo. Pelo menos)
Por que se for conto erótico para homem hetero nem precisa me pagar para isso, vocês mesmo fazem. Basta escrever que duas lésbicas gostosas e sexies estavam se amando quando se deram conta quão ruim é a vida do velcro velcro após conhecer O cara, dono do pinto mais perfeito da face da terra, que as resgatou do sem graça mundo do bate coxa e as elevou a incrível categoria do sexo a três, porque eu me recuso a dizer ménage, e desde então elas descobriram as maravilhas proporcionadas por um pau magnanimo e fim da história.

MARCIA (surpresa)
Nossa, como você é prática!

IVY (continuando o tom profissional como quem fala da taxa Selic)
Estou errada? Homem hetero gosta disso, de mulher e nada mais. Para os homens as coisas são muito mais simples.

MARCIA (olhando surpresa, não interrompe)

IVY (em tom prático-profissional)
Como diria a Rita Lee e o Raul Seixas, agora é moda duas mulheres botarem as aranhas para brigar. Desde, claro, que tenha uma cobra para comer as duas. E homem que é homem gosta disso: de mulher e por isso quanto mais, melhor, desde que claro seja assegurado o papel do macho poderoso e soberano dos lençóis. Uma vez ouvi que existem três tamanhos de pinto.

MARCIA (interrompendo começa a rir)
P, M e G?

IVY (ainda no clima entrevista de emprego)
Não, o grande, o enorme e o magnífico.

MARCIA (começa a rir porque finalmente alguém leva a entrevista de emprego a sério. Engraçado que é uma menina completamente maluca que entende que se trata de um assunto profissional)
Então você aceita o trabalho?

IVY (sem entender)
Depende. Os contos serão só para homens heteros?

MARCIA (também sem entender)
Por que você pergunta?

IVY (dentro do clima entrevista de emprego)
Porque, como disse, se for para homem hetero é realmente muito simples. Se for pra gay mais ainda, porque é só colocar as duas cobras pra brigar e pronto. Mas se for escrever para mulher, nossa, fica difícil demais: tem que descrever o cenário, criar perfil psicológico dos personagens, retratar desde como foi a primeira troca de olhares, o primeiro encontro, inventar jantares, flores, situações totalmente ficcionais, juras eternas de amor para só ai entrar na foda final. Dá muito trabalho, to fora.

MARCIA (feliz porque alguém chegou no final da entrevista de emprego diz sorrindo)
Não, é só para homem hetero mesmo. A proposta das duas mulheres é ótima. Então quer dizer que você aceita?

IVY (profissionalmente)
Depende, você não me disse quanto vai me pagar por isso.

MARCIA (fazendo cara de que claro, nem tudo é perfeito, lembra que o site tem que estar no ar em duas semanas e o cafetão, ops, cliente, exige bons contos eróticos e é o maior cliente de sua agência lembra que seu chefe sinalizou que poderia aumentar o valor do cachê caso a situação ficasse realmente difícil)
Bem, estamos pagando 5 reais...

IVY ( interrompe profissionalmente)
Sinto muito, mas é muito pouco.

MARCIA (continuando)
POR PALAVRA (enfática). E você pode escrever o quanto quiser, é tema livre, desde que não contenham erros de português e o conto tenha o mínimo de estrutura narrativa.

IVY (pensando que já que está nos trópicos é melhor vender a alma para um cafetão endinheirado do que o corpo. E a oferta é melhor do que aquele frila oferecido pelo senador em Brasília. Em termos de dinheiro e de ética)
Começo quando?

Close na expressão final de iVY. Sobre BG. Fade out.

Esta é uma obra de ficção, principalmente a parte dos 5 reais a palavra. Tirando IVY, os demais personagens como também situações não existem. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

9 comentários:

Nirtu disse...

AHUAHAUAHUAHAUAHU

TOTALMENTE, TOTALMENTE, TOTALMENTE EXCELENTE!

Bibi disse...

HAHAHAHAHAHAHAHA

De! disse...

Hahahaha! Sensacional, parabéns...

Cris disse...

Fantástico, Ivy! Adorei! =) bjs Cris

.:eddy:. disse...

Descobri aqui pelo blog "Novo em Folha".

Adorei o "roteiro"!!! Ótima idéia.

Virei fã!!

Acesse-nos qd puder:
www.maisumabandavirtual.blogspot.com

abraço!

Flavio disse...

Muito bom!

Elisandra Amâncio disse...

Você é ótima, kkkkkk!

Fernando S. Trevisan disse...

Fantástico, realmente. Parabéns pelo texto!

Felipe disse...
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